5. COMPORTAMENTO 8.5.13

1. COMO ACABAR COM A GUERRA EM CASA
2. UMA CIDADE QUE ABRAOU A EDUCAO
3. NOS PASSOS DA HISTRIA
4. A VOLTA DO NAZISTA
5. SADA PELA PORTA DOS FUNDOS

1. COMO ACABAR COM A GUERRA EM CASA
Pais, mes e filhos podem ser treinados para alcanar a harmonia em famlia. Tcnicos esportivos, especialistas em guerra e altos executivos mostram em recente best-seller nos Estados Unidos como isso  possvel
Nathalia Ziemkiewicz

A batalha na casa do escritor americano Bruce Feiler durou quase oito anos, idade de suas filhas gmeas Eden e Tybee. As manhs eram especialmente caticas ? nunca subestime o potencial blico de uma criana quando acorda e precisa ser vestida, alimentada e encaminhada ao colgio contra a vontade. Feiler e sua esposa, Linda, estavam prestes a explodir de frustrao. ?Percebi que jogvamos sempre na defensiva, nunca no ataque?, disse o colunista do jornal ?The New York Times? sobre vida em famlia para a ISTO. Cansado dos convencionais guias de autoajuda, ele recrutou especialistas das mais diversas reas para descobrir como manter um grupo unido e motivado: militares, esportistas, executivos, publicitrios, etc. Colocou tudo em prtica na sua casa, melhorou significativamente a dinmica familiar e, em fevereiro, publicou ?The Secrets of Happy Families? (?Os segredos das famlias felizes?, em traduo livre), com um arsenal de 200 dicas inusitadas para a paz do lar.

A obra j figura entre as mais vendidas no ranking do ?The New York Times? e teve os direitos comprados pela Ediouro para ser lanado no Brasil ainda este ano.   um sucesso previsvel. Pais modernos so seres entrincheirados entre a frentica exigncia profissional e a conflituosa rotina domstica. Dcadas atrs, as geraes no percorriam as prateleiras das livrarias em busca de ttulos aconselhadores. Cabia s mulheres cuidar da educao dos filhos, enquanto os homens se dedicavam ao mercado de trabalho. Agora, essa diviso de papis praticamente inexiste e encontrar o equilbrio entre eles parece ser a chave da felicidade. Segundo uma pesquisa da Pew Study feita em 2010, 76% dos adultos consideram a famlia o elemento mais importante da vida. ?A satisfao dentro de casa norteia os outros aspectos do dia-a-dia,  o que nos deixa tranquilos ou no fora dela?, afirma Jos Roberto Marques, presidente do Instituto Brasileiro de Coaching.

ORDEM - Jlia (com o marido, Robert) cansou de cobrar os filhos, Luka e Nycolas. Formulou regras, que ficam fixadas na geladeira

Em seu livro, Feiler mostra que dedicamos tempo para aprimorar nosso trabalho, nosso corpo, nossos hobbies, mas no fazemos o mesmo por aqueles que mais amamos. E por que isso acontece? ?As demandas profissionais nunca foram to grandes e as pessoas tm pouco tempo para lidar com questes emocionais?, afirma Ana Maria Rossi, doutora em psicologia e presidente do Isma-BR, uma associao internacional para a preveno e o tratamento do estresse. ? como se elas se reprimissem o dia inteiro para se enquadrar na postura socialmente aceita, ento s querem ser elas mesmas quando voltam para casa.? Em outras palavras, voc perde a pacincia com seu marido porque no pode perder com seu chefe. O autor americano tenta tirar os pais desse fogo cruzado, com sugestes de respostas para perguntas cruciais: como transmitir valores e responsabilidade s crianas, e ainda assim se divertir em famlia? Como educar e dar suporte aos filhos, mas tambm arrumar tempo para preservar a relao do casal?

A primeira lio que Feiler testou veio da indstria automobilstica japonesa. L, os trabalhadores seguem um quadro de tarefas que organizam o caos e faz com que todos vejam o progresso do time. Eles tambm participam de breves reunies para avaliar o desempenho do grupo e discutem o que deu certo, o que no deu e qual ser o objetivo da prxima semana. Esses encontros reduzem o estresse e melhoram a comunicao da equipe. Como todas as propostas do livro, Feiler testou essa em sua casa. Pregou um fluxograma na parede da cozinha, listando os deveres de cada membro da famlia, como ?tirar o lixo? ou ?arrumar a cama? (leia mais na pg. 66). Tambm ajudou as filhas a se orientarem de manh com um cartaz de passo a passo: ?escovar os dentes?, ?arrumar o cabelo?, etc. Todos passaram a se reunir uma vez por semana, por 15 minutos, para conversar sobre apenas dois problemas e sugerir solues. Desde ento, o autor permite que as filhas escolham as prprias recompensas e punies, como ?uma festa do pijama? ou ?uma semana sem doce?, de acordo com o comportamento.

HARMONIA - Ana Paula recorreu aos jogos de caa-palavras para salvar as viagens de carro com os gmeos Joo Pedro e Thiago

 De fato, h uma srie de pesquisas sobre como  vantajoso dar poder s crianas. Quando planejam o tempo, definem metas e avaliam o desempenho, elas desenvolvem o crtex pr-frontal. Essa parte do crebro  responsvel pela cognio, pela tomada de decises e pela autodisciplina. De um jeito intuitivo, a empresria Jlia Cencini aplicou uma tcnica parecida com seus dois filhos, Nycolas e Luka, de 19 e 14 anos. Ela pregou na geladeira uma constituio com regras e tarefas, tudo discutido e assinado por cada um da famlia. ?Eu era a chata sobrecarregada, no aguentava mais brigar e cobrar que me obedecessem?, diz Jlia. A televiso, por exemplo, deve ser desligada s 22h. O castigo vem em forma de descontos na mesada, mas a empresria ainda no precisou recorrer a isso. Para ela, o desgaste diminuiu porque, quando as coisas no saem como o esperado, basta apontar para a ?lei? formulada em conjunto.

RELAX - Por causa do trabalho, Ana Jlia no almoa nem janta com Enzo, mas compensa com o tempo juntos com qualidade

A obrigao das refeies em famlia  outro mito que o colunista derruba em seu livro. Ele traz  tona uma pesquisa reveladora: apenas dez minutos ao redor da mesa so de conversas produtivas. O resto  ocupado por frases como ?passe o sal? ou ?tire os cotovelos da?. Ou seja, em vez de se culpar por no conseguir almoar ou jantar com os pequenos, os pais deveriam reservar tempo, de qualidade, com eles em um horrio vivel da sua rotina ? pode ser uma leitura infantil antes de dormir, por exemplo. A descoberta  um alento para mulheres como a fisioterapeuta Ana Jlia Graf. Ela trabalha 12 horas por dia, o que a impossibilita de fazer as refeies com o filho Enzo, 8 anos. ?Eu me cobro por isso, me sinto uma me incompleta por no estar com ele nesses momentos?, diz. Ana tenta recompens-lo aos fins de semana e dias de folga, quando est mais relaxada e pode acompanhar trabalhos de escola ou bater uma bola na praia, em Santos, onde vive com o marido. Melhor para Enzo, de acordo com uma pesquisa feita com crianas e adolescentes entre 8 e 18 anos. Elas responderam  pergunta: ?Se voc tivesse um pedido aos pais, qual seria?? Ao contrrio do que os adultos entrevistados imaginaram, os filhos no pediram mais tempo com eles: 34% queriam que o pai e  a me estivessem menos cansados.

 Esse dado  curioso, na medida em que o prprio rebento se encarrega de minar as energias de seus progenitores. Imagine que irmos entre 3 e 7 anos brigam dez minutos a cada hora. E que apenas um em cada oito combates termina em reconciliao. A comerciante Ana Paula Gaspar hasteou a bandeira branca h alguns anos, depois de surtar em viagens de carro com os filhos Joo Pedro e Thiago, gmeos de 13 anos. Eles costumavam passar temporadas no litoral, mas o perodo de descanso nunca saa como o esperado. Impacientes no trnsito, com fome, eles perguntavam o tempo todo ?quanto faltava para chegar? e se cutucavam para driblar o tdio. Certa vez, Ana Paula colocou a cabea para fora da janela e gritou exaurida. Hoje, anda com revistas de caa-palavras para todo lado, uma ttica que no s sossegou os meninos como fez com que todos se ajudassem para finalizar o jogo. Foi exatamente essa a dica dada pelos designers de games do Vale do Silcio entrevistados por Feiler, experts em entreter crianas. A essncia  estimul-las a interagir, no competir entre si. Em salas de espera, como aeroportos, d misses como ?descubra a que horas sai o prximo voo para os EUA? ou ?quantos passos so necessrios at o porto 3??  

NAMORO - Tatiana sofre para equilibrar o trabalho, a casa e a criao da filha Sofia. Rodrigo quer mais tempo sozinho com ela

A ideia de pertencer a um grupo, nas horas divertidas ou difceis, aumenta os laos de afinidade e o poder de resilincia. Feiler identificou essa qualidade ao conversar com lderes militares e esportistas ? so indivduos que compartilham experincias e se movem juntos por um propsito. Por isso, ele sugere que at mesmo quando se trata de dinheiro as famlias pensem no grupo. Casais devem separar a renda entre ?meu?, ?seu? e ?nosso?. Os filhos que ganham mesada podem contribuir com 15% do valor para algo em prol de todos ? uma noite no boliche ou frias no campo, por exemplo.  tambm uma forma de as crianas entenderem o significado dos impostos e da poupana. A analista de tecnologia da informao Mnica Japiass faz questo de educar financeiramente as filhas Amanda e Letcia, de 8 e 4 anos. Ela e o marido presentearam as meninas com cofrinhos e pagam uma semanada s duas. A mais velha ganha R$ 3,50 e a mais nova, R$ 0,50 (gastos em balas). Amanda economizou meses para comprar um skate e a me a ajudou na pesquisa de preos. ?Isso far diferena no futuro, elas sabero o valor do dinheiro e como administr-lo?, afirma Mnica.

SEMANADA - As filhas de Mnica e Carlos, Letcia e Amanda, ganharam cofrinho e educao financeira dos pais

Com tantas preocupaes com os filhos, as desavenas entre o casal se tornam praticamente inevitveis. O prprio Feiler conta que ele e a esposa tinham um horrio crtico diariamente, no comeo da noite, quando decidiam quem iria lavar a loua ou botar as roupas na mquina. Estudos indicam que o perodo mais estressante para as famlias  entre 18h e 20h, com os pais cansados do trabalho e diante das tarefas domsticas. O casal adiou as conversas chatas para depois do jantar e de um banho relaxante. Feiler consultou diplomatas de Harvard para saber como brigar com inteligncia (leia mais na pg. 65) e descobriu que longas discusses so as menos eficazes. Os verdadeiros argumentos so ditos nos trs primeiros minutos ? depois, a tendncia  a repetio e ofensas. ?Se a briga fica feia, prefiro dar um gelo do que me desgastar na discusso?, diz a fotgrafa Tatiana Cristov Furlan, casada h cinco anos. Ela trabalha e cuida da filha Sofia, 2 anos, alm de ser responsvel pelas tarefas da casa. Quando o marido volta do escritrio, j est pronta para dormir. ?Ele reclama que no tenho tempo para ele?, diz. Reservar um dia na semana para namorar  uma das dicas de uma terapeuta sexual com quem Feiler conversou.

 No existem frmulas prontas nem um perfil cientfico das famlias felizes. O que o autor americano aponta so pistas de como se aproximar daquela to sonhada harmonia, sem recorrer a cartilhas clichs de best-sellers sobre as mes-tigre, chinesas ou francesas. Talvez alguns indicadores ajud em a avaliar se voc est seguindo nesse caminho. Ser assertivo, por exemplo,  uma das qualidades essenciais dentro de casa. ?No reprimir emoes nem colocar a culpa em ningum, mas abrir para o dilogo?, afirma Ana Maria Rossi, do Isma-BR. Em segundo lugar, priorizar a qualidade em vez de quantidade de tempo. De nada adianta passar horas com os filhos se vocs vivem se acusando e se ressentindo. Aps trs anos de pesquisa, o autor concorda. Para ele, as famlias felizes tm trs coisas em comum: elas so adaptveis, conversam muito e se divertem junto. ?E o mais importante: todos decidem continuar a trabalhar para aprimorar a famlia.? Essa pode ser a lio mais duradoura de todas.


2. UMA CIDADE QUE ABRAOU A EDUCAO
Como a unio entre professores, pais, alunos e autoridades de Foz do Iguau reverteu em pouco tempo ndices ruins de aprendizado no ensino bsico e conseguiu bater, inclusive, metas estipuladas para 2022
Laura Daudn, de Foz do Iguau

Uma msica infantil anuncia o final do recreio e os alunos do 5A se aglomeram no corredor para colar na parede os poemas feitos por eles pouco antes. Entre as mos que recortam, dobram e apontam esto as da professora Ana Pereira. Mais do que disposio em ajudar os alunos, chama a ateno a camiseta que ela orgulhosamente veste. Na parte de trs, em nmeros garrafais, uma nota: 7,2. Essa  a mdia conquistada pela escola municipal Adele Zanotto, de Foz do Iguau, no ltimo ndice de Desenvolvimento da Educao Bsica (Ideb), que conjuga dados sobre evaso e reprovao com os resultados das avaliaes externas  no caso das escolas municipais, a Prova Brasil. Quanto maior o nmero na classificao do Ideb, melhor a posio.Ver professores e funcionrios vestindo, literalmente, a camisa de suas instituies mostra a importncia que a educao bsica ganhou na cidade paranaense. Entre os municpios brasileiros com mais de mil alunos matriculados no 5 ano do ensino fundamental, Foz  o que exibe o melhor desempenho. Bate, inclusive, a meta estipulada pelo movimento Todos Pela Educao para 2022 (ver quadro) e  um exemplo de como a mobilizao da comunidade pode revolucionar a aprendizagem em pouco tempo.

REFORO - A escola Papa Joo Paulo I instituiu aulas no turno oposto ao regular para melhorar a aprendizagem

A conquista  recente. Segundo Joane Vilela, ex-secretria municipal de educao e atual secretria-adjunta na pasta de educao da cidade de So Paulo, em 2001 o ndice de reprovao na rede era de 13% e chegou a 15% em 2009. Foi o sinal de alerta. Institumos o Plano de Estudos Individualizados no turno oposto para alunos com dificuldades, com grande incentivo  leitura e  escrita, e o acompanhamento de frequncia e desempenho, diz ela. O retorno foi to rpido que o vereador Dilto Vitorassi (PV) demandou em fevereiro a criao de uma comisso especial na Cmara para investigar eventuais irregularidades na aplicao da Prova Brasil de 2011. No encontramos qualquer indcio de fraude para maquiar o resultado, diz o vereador Nilton Bobato (PCdoB), relator da comisso. Descartada a possibilidade de fraude, cabe  cidade se concentrar em manter os bons resultados. E ter de fazer isso sob uma nova gesto, provando que o compromisso vai alm da poltica. Depois de oito anos, a administrao do PDT, liderada pelo prefeito Paulo Mac Donald Ghisi, deu lugar ao PSB de Reni Pereira. A nova secretria municipal de Educao, Shirlei de Carvalho, promete abraar o desafio. Ex-diretora da escola Santa Rita de Cssia, que obteve 8,6 no Ideb, a nota mais alta do Brasil, ela promete dar sequncia aos programas de maior destaque da cidade. Entre eles, esto o que garante visitas semanais de uma equipe multidisciplinar, formada por um fonoaudilogo, um assistente social e um psiclogo, a todas as instituies da rede e o prmio Professor Paulo Freire, que oferece uma dotao em dinheiro aos professores e escolas que liderarem as experincias e os projetos bem-sucedidos no ano. Um dos homenageados na edio de 2009 foi o professor Fernando Lima, hoje supervisor da escola Santa Rita de Cssia, para quem a nfase nos projetos  um dos grandes trunfos da escola-modelo. A aposta nesses programas criou um vnculo forte com as crianas e suas famlias, diz. Um desafio, entretanto,  a transio para a rede estadual de ensino. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais (Inep) mostram que a porcentagem de alunos com conhecimentos adequados de portugus cai de 77% para 26% entre o 5o e o 9o ano. Em matemtica a situao se repete: o ndice despenca de 81% para 24%.

Um dos segredos do xito de Foz do Iguau, segundo a ex-secretria Joana Vilela,  o envolvimento de toda a cidade. Vimos a proliferao de mobilizaes com o objetivo de garantir a todos os alunos da rede o direito  aprendizagem, diz. Os resultados do esforo coletivo so evidentes na escola Suzana Moraes de Balen, na periferia. A diretora Rozilda Lusa dos Reis e a coordenadora pedaggica Beatriz Martins formaram uma dupla forte para driblar os problemas de evaso e cobrar o envolvimento dos pais no dia a dia do colgio. Juntas, elas passaram a ir de casa em casa buscando os alunos que faltavam com frequncia. Tivemos que lidar at com ameaas porque s vezes vamos o que no podamos ver, conta Rozilda. A iniciativa s foi possvel porque ambas tinham legitimidade para desempenhar o trabalho. Em Foz, tanto diretores quanto coordenadores so escolhidos pela comunidade.  importante que o entorno veja a escola como uma parte importante dele mesmo, especialmente em regies mais vulnerveis, afirma o economista Ernesto Martins Faria, coordenador do site QEdu da Fundao Leman, e um dos responsveis pela pesquisa Educao com Equidade.

Do outro lado do municpio, a escola Papa Joo Paulo I tambm  um exemplo de como a unio entre comunidade, diretores e professores pode transformar a realidade em tempo recorde. Foi l que a diretora Janeci Maria Werdt, no cargo h 22 anos, fez sua pequena-grande revoluo. Diante dos resultados negativos na Prova Brasil de 2007, ela decidiu recorrer  associao de pais e professores para contratar um docente que desse aula para os alunos do 5o ano no perodo inverso  um programa de reforo em contraturno, que depois foi adotado em toda a rede municipal a partir do 1o ano. Comeamos uma guerra contra os nmeros. Trabalhvamos manh, tarde e noite para reverter a situao, diz. Deu resultado. De 4,8 no Ideb em 2007 a escola passou para 8,4 em 2011.

Apesar de ser um fator objetivo para auferir proficincias, especialistas ainda divergem sobre a importncia que se deve dar ao resultado das avaliaes externas. Elas no podem ser a nica matriz ao redor da qual gira o currculo da escola, diz Ocimar Alavarse, professor da Faculdade de Educao da Universidade de So Paulo, sublinhando que os rankings escondem as diferenas das quais as escolas partem e estimulam o desequilbrio, e no a igualdade do sistema. As provas criam, no entanto, um referencial relativamente confivel para os colgios, permitindo que a evoluo dos alunos seja acompanhada ao longo dos anos. Para ele, esse movimento j era observado na rede particular tendo como ponto de partida os vestibulares. A novidade  que as escolas pblicas aderiram ao processo, completa. E agora, com uma base de comparao, podem empreender os avanos educacionais necessrios.


3. NOS PASSOS DA HISTRIA
As lutas e conquistas femininas podem ser contadas atravs dos sapatos, que, ao longo dos anos, traduzem a posio da mulher na sociedade
Mariana Brugger

O filsofo italiano Norberto Bobbio (1909-2004) afirmou que a mais importante revoluo do sculo XX foi a da mulher. E so vrias as maneiras de se verificar isso  at pelos sapatos. No livro Do tornozelo para baixo: a histria dos sapatos e como eles definem as mulheres (Editora Casa da Palavra), a escritora americana Rachelle Bergstein mostra as lutas e conquistas femininas atravs do que elas calaram ao longo das ltimas dcadas. Sua anlise histrica e antropolgica comea com as criaes do estilista italiano Salvatore Ferragamo (1898-1960), passa pelo tnis, que deixou a academia e ganhou as ruas, at chegar aos tempos atuais em que sapatilhas podem ser chiques e revelar poder.

Ao longo das dcadas,  interessante analisar o papel de um cone feminino: o salto alto. Desde a antiguidade, a altura revelava importncia. Ainda hoje, esse tipo de pensamento continua valendo   s observar as premiaes e tapetes vermelhos, aponta a autora. Ele perdeu terreno na Primeira e na Segunda Guerra Mundial (1914-1918 e 1939-1945), quando as mulheres tiveram de ocupar o vazio deixado pelos homens nas fbricas. No ps-guerra, surgiu, ento, o salto agulha, num grito de feminilidade. At recentemente, as executivas precisavam lanar mo da altura para impor sua presena no mundo corporativo. Era necessrio, inclusive, para que a mulher no poder tivesse altura o suficiente para olhar nos olhos dos homens subordinados e traar uma hierarquia tambm visual. Hoje, com um ambiente mais receptivo, elas podem dar mais peso ao conforto. So poucas as mulheres que usam apenas um tipo de sapato atualmente. Nossas vidas so muito cheias e com demandas variadas para manter apenas um estilo, disse a escritora  ISTO.


4. A VOLTA DO NAZISTA
Convidado a dar aula em universidade americana, o estilista condenado por racismo aps declaraes antissemitas enfrenta protesto dos alunos

A moda dramtica, cida e exuberante sempre foi a assinatura do estilista John Galliano. Tido como um dos mais criativos e originais designers do sculo XX, esse gnio na arte de transformar desfiles em verdadeiros espetculos cinematogrficos, com direito a efeitos especiais, trapezistas, lutas de espadas e at freiras sadomasoquistas, sempre fez sucesso, assim como seu esprito polmico e provocador. Em 2011, porm, o estilista passou completamente dos limites em um vdeo no qual faz declaraes antissemitas, como ?eu adoro Hitler?. Perdeu a direo criativa da Maison Dior e ganhou uma mancha indelvel na sua imagem. Declarado culpado de racismo pela Justia francesa e obrigado a pagar uma multa de seis mil euros por seus insultos, Galliano estava num ostracismo de controvrsias at a semana passada, quando resolveu se aventurar em um novo terreno: o de professor-convidado da conceituada Parsons The New School for Design, em Nova York. Aos 52 anos, o designer nascido em Gibraltar, mas radicado na Inglaterra, ir ministrar um workshop chamado ?Show me Emotion? (em traduo livre, mostre-me emoo) para 20 alunos do ltimo ano de bacharelado em moda. O objetivo, segundo a universidade,  ?envolver seus participantes, provocando o poder da emoo no contexto da prtica da moda?.

DOIS MUNDOS - Modelo veste criao do estilista na semana de moda de Nova York: o universo fashion o acolheu, mas longe de seus pares ele enfrenta resistncias

O simples anncio do curso, porm, despertou outro tipo de emoo entre os estudantes, moradores de uma cidade onde os judeus tm grande importncia poltica e econmica. Muitos alunos, revoltados com a notcia, deram incio a uma petio online contra o estilista que j conta com centenas de assinaturas. ?Contratar algum que fez comentrios horrveis mostra que a escola valoriza mais John Galliano do que os seus alunos judeus. Ns no queremos que o dinheiro de nossa matrcula v para esse tipo de pessoa; sentimos que levamos um tapa na cara da instituio?, diz um trecho da petio. A universidade, por sua vez, ainda no se manifestou sobre o protesto e at agora continua firme em sua escolha. Em nota, declarou: ?Nos ltimos dois anos Galliano tem demonstrado uma sria inteno de se redimir por seus atos. Ele  um mestre da alfaiataria e nossos alunos tm muito a aprender com ele.?

 inegvel que o designer possui talento de sobra e um currculo mais do que gabaritado para o posto. Formado pela prestigiada Saint Martin?s School of Art, em Londres, ele foi diretor criativo da Givenchy entre 1995 e 1996, quando foi chamado para assumir a Maison Dior. Nos 15 anos  frente da grife, fez um trabalho impressionante de revitalizao da marca, que estava em crise na poca de sua contratao. ?Acredito que a Parsons teve uma boa ideia e no vejo sentido nessa petio, pois o curso no  obrigatrio?, diz Lorenzo Merlino, estilista e professor de design de moda da Fundao Armando lvares Penteado (Faap). ?Os alunos que se sentem discriminados tm a possibilidade de no assistir s aulas. Galliano est pagando pelos seus atos, veio a pblico pedir desculpas e no h o por que no dar uma nova chance a um profissional to talentoso.?

Os protestos no mbito acadmico no encontram eco no universo fashion. Em janeiro, o estilista dominicano Oscar de La Renta resolveu dar uma chance a Galliano e o contratou como assistente da coleo outono/inverno da grife. O resultado dessa parceria foi visto durante a ltima semana de moda de Nova York, em fevereiro, quando algumas peas traziam um pouco do estilo dramtico caracterstico de Galliano. A crtica foi positiva e, ao que parece, o mundo da moda fez as pazes com o estilista.

Longe de seus pares, tudo indica, o caminho ser mais demorado. A derrocada do gnio criativo comeou em fevereiro de 2011, aps a queixa de um casal que diz ter sido insultado por Galliano, embriagado, no bar La Perle, no bairro parisiense do Marais. Na semana seguinte, foi divulgado o vdeo com os comentrios antissemitas. De novo, como ficou comprovado por exames, ele estava bbado, o que no o livrou de duras crticas e de prestar contas  Justia por seus atos. O estilista veio a pblico pedir desculpas, admitiu a internao para o tratamento do alcoolismo e foi considerado culpado de ?insultos pblicos baseados na origem, afiliao religiosa, raa ou etnicidade?. Mas seu futuro  incerto. Atualmente, ele move um processo contra a LVMH, proprietria da Dior, alegando que a sua demisso foi improcedente. Saiu vitorioso em primeira instncia, mas ainda h uma longa jornada para sua reabilitao pessoal.


5. SADA PELA PORTA DOS FUNDOS
Acusado de receber suborno, Joo Havelange renuncia  presidncia honorria da Fifa para evitar sanes do Comit de tica. Mas os escndalos continuam
Michel Alecrim

Joo Havelange, que completa 97 anos na quarta-feira 8, foi um dos presidentes que por mais tempo comandou a Federao Internacional de Futebol (Fifa). Durante 24 anos, entre 1974 e 1998, dirigiu a entidade, sediada na Sua, que tem mais membros do que a ONU  209 contra 193. Mas tantas glrias no evitaram a decadncia: o ex-todo-poderoso do futebol mundial acabou abandonando a federao pela porta dos fundos no dia 18 de abril. O cartola pediu o bon por escrito, sem alarde. Renunciou  presidncia honorria para evitar sanes do Comit de tica da federao, que o investigava por ter recebido propina da empresa sua de marketing esportivo ISL. Junto com o ex-presidente da Confederao Brasileira de Futebol, Ricardo Teixeira, Havelange teria embolsado R$ 45 milhes indevidamente. Por meio de acordo, em 2004, a dupla devolveu R$ 5,4 milhes. Sem punies  altura dos delitos praticados, a Fifa vai perpetuando os desvios de tica. Chegar ao seu 63 Congresso no fim deste ms, nas Ilhas Maurcio, no Oceano ndico, tendo de dar soluo s denncias de compra de votos por parte do Catar para sediar a Copa de 2022.

NA SURDINA - Ex-mandachuva do futebol mundial, Havelange pediupara sair por escrito e sem fazer alarde

Os autores do esquema, entretanto, continuam levando uma vida milionria. Ao atender a ligao da reportagem de ISTO na quarta-feira 1, enquanto assistia ao jogo entre Barcelona e Bayern de Munique aps almoo no Country Club do Rio de Janeiro, um dos mais seletivos e caros do Pas, Havelange pediu desculpas e disse que no daria declaraes no feriado. No dia seguinte, no atendeu os telefonemas. Atualmente, ele vive com a mulher, Anna Maria, em Ipanema, na zona sul carioca. Tem a ajuda de cuidadores e aulas de hidroginstica. Os desvios praticados na dcada de 1990, quando os dirigentes receberam propina para beneficiar o grupo suo na venda de direitos de transmisso das copas de 2002 (Japo/Coreia do Sul) e 2006 (Alemanha), viraram passado. Mas o esquema continua: em janeiro, a revista francesa France Football denunciou o pagamento de milhes de dlares pelo Catar. O caso precisa ser solucionado pelo atual presidente da Fifa, Joseph Blatter, cria de Havelange.

Esse escndalo da ISL deveria servir de exemplo para as reformas, diz Eduardo Carlezzo, advogado especialista em direito esportivo. De fato, na poca de Havelange, sequer havia Cdigo de tica na Fifa, que s instituiu um em 2004. Para o presidente do Instituto Brasileiro de Direito Desportivo, Gustavo Delbin, a entidade j tem instrumentos suficientes para punir, o que falta  rigor. O esporte movimenta cifras cada vez mais altas. Mesmo sendo negcios privados,  preciso transparncia e tica, defende.

